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Os "Sem-Criatividade" ficarão "Sem-Emprego"?
A relação entre criatividade e empregabilidade
é tratada por um de nossos mais antigos assinantes e colaboradores,
José Predebon, neste artigo publicado no nº 27 do jornal
Profissional & Negócios, janeiro de 2000.
Desculpem-me os deslumbrados pelo modismo da criatividade, tida
por muitos como panacéia para todos os males empresariais.
Defendo a evidência de que as carreiras profissionais e seu
sucesso independem bastante do exercício da criatividade.
Atrevo-me a dar esta braçada aparentemente contra a maré
com uma posição insuspeita: dando aulas de criatividade
e inovação e tendo publicado três livros sobre
o assunto, fico à vontade para refletir sobre seus ângulos
menos comuns. O modismo não é gratuito. Criatividade
é uma das mães da inovação, e (arre!)
inovação, mudanças, quem ainda não se
enjoou de ouvir falar nisso? E há também os diferenciais
competitivos, que na maioria se baseiam em idéias originais,
e sem os quais as empresas penam. Haja criatividade!
Entretanto, se nessa onda tudo é explicável, pouco
é justificável. Inovação, esta sim,
imprescindível,
não se faz apenas com criatividade.
As lutas dos conquistadores só se tornam vitórias
com o trabalho dos organizadores. A idéia original se frusta,
se não houver um perfeito processo para sua aplicação.
Essa questão foi bem estudada e explorada em extensa matéria
publicada recentemente pela revista "The Economist", com
o título "A Survey of Innovation in Industry "
(Pesquisa sobre inovação na indústria). Lá
se conclui que hoje existe uma teia de variáveis tão
complexa que a criatividade se tornou refém da organização.
Ao se deter na questão, vê-se que sempre haverá
funções para os não-criativos, os quais por
um engano quase geral já começam a ser olhados com
piedade. Errado! A natureza nos fez diferentes porque é sábia,
e ela sugere que nos realizemos sendo exatamente o que somos. Criativos
ou organizadores ou, por que não, filósofos ou atletas.
Quem tentar ser o que não é perde sua âncora
e se desajusta.
Dentro dessa linha, olhemos a questão da empregabilidade.
Que eu gosto de lembrar como sinônimo de "inseribilidade"
no sistema. A meu ver essa condição hoje repousa num
tripé de competências. A primeira é a técnica,
que dependente de preparo e atualização. A segunda
é a emocional, que se traduz no também tão
falado Q.E., de Daniel Goleman. E a terceira competência é
a inovadora, e nesta encontramos tanto criatividade como organização.
Portanto, posso concluir esta análise dando uma receita de
como melhor se inserir (empregar) no contexto, para quem está
iniciando ou revendo sua vida profissional. O principal é
cultivar, atenção, auto conhecimento. Descobrir qual
é seu lugar ideal na sociedade, baseado na sua própria
natureza.
A partir disso, fazer o seu plano de vida e carreira. Dirigir a
proa do barco para aquele norte onde lhe parece morar sua felicidade.
A seguir, cuidar das suas três competências, preocupando-se
mais em otimizar aquela na qual já é melhor. Bem trabalhada,
ela poderá compensar bastante alguma falta (eu disse alguma)
das outras duas.
A carreira pessoal de uma pessoa sempre estará mais ligada
a uma daquelas três competências. É fato que
cada vez mais carreiras se apoiam na capacidade inovadora, mas sempre
haverá lugar para os "hiper técnicos" e
para os "bons de relacionamento pessoal".
Contudo, mesmo quando a circunstância exigir competência
inovadora, os "sem-criatividade" nunca ficarão
"sem-emprego". Bastará tornarem-se bons organizadores.
Quanto às pessoas que já exercem, acima da média,
seu potencial criativo, poderão se colocar ainda melhor no
mercado. Para isso devem se manter conscientes da extrema utilidade
de articular sua competência inovadora com a qualificação
técnica e a capacidade de relacionamento.
Sem emprego, mesmo, tendem a ficar os que ainda lêem a realidade
com óculos antigos. Que hoje só enxergam a metade
vazia do copo com as imperfeições do sistema, que
realmente são muitas.
Finalizando, convém lembrar a sabedoria oriental que usa
o mesmo ideograma para dizer "crise" e "oportunidade".
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