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Anna Paula Buchalla
Lailson Santos Wever: a importância de se manter ativo
Há pessoas que passam a vida esperando a hora de se aposentar. Para essas, novos estudos médicos trazem um alerta: a aposentadoria precoce pode ser um veneno para a saúde e precipitar doenças que encurtam a vida. A revista científica inglesa British Medical Journal acaba de divulgar os resultados de uma das pesquisas mais minuciosas já feitas sobre o assunto. Uma equipe de estudiosos acompanhou, durante 26 anos, mais de 3.500 funcionários de todos os níveis socioeconômicos da Shell americana, no estado do Texas. Os dados colhidos revelam que as pessoas que se aposentam aos 55 anos correm mais risco de morrer antes do que aquelas que se aposentam aos 65. Em média, os funcionários da Shell que se aposentaram aos 55 anos viveram até os 72. Os que saíram do emprego aos 60 viveram até os 76. E os que se aposentaram aos 65 viveram até os 80. Além disso, os precoces mostraram ser 89% mais propensos a morrer nos dez anos seguintes à aposentadoria do que os que param de trabalhar mais tarde. "A pesquisa derruba a idéia de que aposentar-se tarde encurta a vida. Isso não é verdade", escreve o médico Shan Tsai, um dos autores do estudo.
Há basicamente duas explicações para a relação entre aposentadoria e morte precoces. Em primeiro lugar, a má utilização do tempo que sobra na vida de um aposentado pode levar ao aumento do stress, à depressão e ao sedentarismo, condições que estão na base de uma série de distúrbios. Um estudo envolvendo 52 países, chamado "Interheart", avaliou a associação entre fatores emocionais e a ocorrência de infarto. Dos mais de 11.000 pacientes pesquisados, 16% relataram ter vivido eventos estressantes no ano anterior ao infarto. A aposentadoria foi um dos fatores de maior peso citados pelos doentes, ao lado de divórcio, falência e morte. Também já se sabe que a inatividade física está na raiz de doenças crônicas e distúrbios cardiovasculares.
A outra explicação é que a transformação no convívio social provocada pela aposentadoria tem influência negativa na saúde. Muitas pessoas se definem pelo que fazem e pelo cargo que ocupam em uma corporação. Se perdem isso, podem perder também o entusiasmo. "Essa perda repentina de motivação pode ter impactos muito negativos sobre a saúde e o bem-estar", explica o cardiologista Maurício Wajngarten, chefe do departamento de cardiogeriatria do Instituto do Coração, de São Paulo. Quanto maior tiver sido a identificação com a empresa em que se trabalhou, mais difícil será a adaptação à vida sem ela. "As pessoas subestimam a importância do trabalho quando resolvem se aposentar", diz Luiz Wever, sócio-diretor da consultoria Ray & Berndtson, especializada em gestão de talentos.
A volta para casa e para o convívio familiar pode ser altamente frustrante – não só para o aposentado, mas também para aqueles ao seu redor. Já existe até uma síndrome associada ao fenômeno: a síndrome dos maridos aposentados. "O homem volta para casa e a esposa passa a ser minha paciente", conta a cardiologista Ângela Cristina dos Santos, do Instituto do Coração, que trabalha com prevenção de saúde de executivos. Ela cita o caso de um paciente que, uma vez aposentado, infartou no sítio que escolheu justamente para passar os seus anos "tranqüilos". O ex-executivo conseguiu estressar até os seus pacatos funcionários do campo. Ele distribuía memorandos aos empregados, com um rigor incabível para a situação.
Recentemente, as regras da Previdência mudaram no Brasil. O jovem que consegue hoje seu primeiro emprego só poderá se aposentar a partir dos 65 anos, se for homem, e a partir dos 60, se for mulher. Mas a aposentadoria precoce continua sendo uma possibilidade para aqueles que já estavam no mercado de trabalho há tempos – ou para aqueles que planejam o futuro com base na previdência privada. Em alguns meios, há incentivos para que o profissional deixe seu cargo cedo. Dados de mercado mostram que a idade média de aposentadoria dos executivos de grandes corporações brasileiras era de 65 anos até recentemente, mas caiu para a faixa dos 55 aos 58 anos. Empenhadas em enxugar ou renovar seus quadros, essas empresas muitas vezes oferecem benefícios àqueles que se aposentam logo. Na contramão dessa tendência encontra-se a Siemens, que acabou esticando em cinco anos a aposentadoria de um de seus principais executivos. O protagonista dessa história foi Hermann Wever, que trabalhou 22 anos na companhia – os últimos catorze como presidente. "Não acredito que um hobby preencha a vida de quem se aposenta. Continuo trabalhando, faço parte de conselhos de instituições, com a vantagem de ter um ritmo mais leve", conta Wever, que se aposentou com 65 anos e hoje tem 68.
A política defendida por Wever vai ao encontro dos conselhos dos especialistas. "A vida produtiva não se encerra necessariamente com a saída do emprego formal", afirma a psicóloga Anita Liberalesso Neri, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela recomenda não parar de uma vez. É importante, segundo a psicóloga, praticar serviços voluntários, voltar aos estudos ou até mesmo começar uma nova carreira. Também se deve ter em mente que os avanços da medicina não têm aumentado somente a expectativa de vida das pessoas, mas a expectativa de uma vida ativa. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já alertou: a massa de pessoas que chegam à terceira idade em situação equivalente à dos jovens no quesito força de trabalho cresce sem parar. O termo que a instituição usou para descrever essa massa foi tsunami.
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