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De Volta Ao Trabalho

João Roberto de Paula Domingues - Psicólogo


"Conselho aos operários: tomem decisões por si e, se têm certeza de que estão certos, não fiquem aí parados, acatando ordens: vocês podem mudar as coisas e impôr mudanças a seus chefes"
(Jack Welch, presidente do conselho e CEO da General Electric Company)

Pode parecer estranho e paradoxal, mas esta frase é dita frequentemente por alguém que hoje é considerado o mais poderoso executivo da face da terra, à frente do mais valioso empreendimento de nossos dias (a GE possui hoje, segundo a Business Week, um valor de mercado correspondente a algo em torno de US$ 198 bilhões, com 270.000 funcionários e 12 grandes áreas de negócios no mundo). Merece, portanto, uma breve reflexão da nossa parte. Afinal, esta prática vem dando resultados promissores há anos na GE e há muitas outras empresas pautando suas estratégias de gestão nesta direção como resposta à intensa transição mercadológica, organizacional e gerencial que estamos vivendo neste final de século.

Nossa reflexão deve se iniciar com a retomada do sentido do termo "trabalho", que de tão vilependiado e usado de forma deturpada, acaba perdendo o seu significado verdadeiro e se tornando, segundo o dito popular, mais um castigo do que uma ação voluntária e realizadora do potencial das pessoas.

Se entendermos o significado de "trabalho" como sendo as ações que o homem empreende sobre o seu meio ambiente visando viabilizar a sua sobrevivência e promover a melhoria da qualidade da vida própria e dos seus, vamos resgatar a importância dessa ação humana desde os primórdios da civilização, quando os primitivos seres das cavernas sobreviviam à custa de muito "trabalho" procurando lugares para morar e alimentos para colher ou caçar, procurando água, criando objetos e pesquisando soluções para seus problemas. Trabalhar, portanto, era tão natural e contínuo quanto qualquer outra atividade que viessem a praticar, como pintar as paredes das cavernas, por exemplo. Este desafio de sobreviver e tornar as condições de vida melhores promoveu a evolução da espécie humana, com todos os desdobramentos que a história nos ensina, mas trazendo consigo as complicações inerentes a este processo, como o aumento da população, a disputa pelo poder de comando como resposta à necessidade de se organizar grupos e clãs, a necessidade de gerar alimentos, etc, tudo isso fermentado pela tendência egocêntrica de acumular bens ou possíveis riquezas que significavam poder de mando ou de barganha para obter o que não se possuía.

Foi assim que passamos da era primitiva, extrativista, da ação individual de sobrevivência da idade antiga, em que o sujeito "trabalhava" por si e para si e sua família, para o que se chamou de sistema feudal, onde os detentores do poder da força acumularam e dividiram entre si grandes extensões de terras e recursos, criando um sistema de produção onde os "servos" que não possuíam o poder ou bens, trabalhavam para os detentores dos meios de produção em troca da sobrevivência e da moradia, gerando excedentes que mantinham a família do senhor feudal, seus agregados, seus soldados e a Igreja, que os "abençoava" dentro da "ordem natural das coisas" da época.

Nesse momento a humanidade começou a praticar a "expropriação do trabalho", ou seja, uma pessoa passa a produzir algo de que não necessariamente precise para si e para sua família sobreviver, mas para permutar por meios que garantam a obtenção do que de fato necessita para si e para sua família sobreviver: alimento, abrigo, etc.

Quando os "artesões" e outros empreendedores da época começaram a formar os "burgos" e a produzir bens para serem permutados ou vendidos (a moeda ganha força), começaram a oferecer aos despossuídos os primeiros "empregos" de que temos notícias, ou seja, trabalhar passou a significar produzir bens ou "produtos" para o detentor dos meios de produção, que os vendia a quem deles necessitasse ou pudesse adquirir, em troca de uma "remuneração" que permitisse aos "trabalhadores" adquirir os bens ou produtos de que de fato necessitasse para si para sua família sobreviver. Este momento marca o início do que se pode chamar de "economia de mercado", tão forte e intenso que acabou provocando dois fatos históricos da maior importância até nossos dias: a criação de um novo sistema político com a criação do Estado enquanto agente gestor e mantenedor dos grupos / burgos / povos / nações e o fim do feudalismo enquanto agente concentrador dos meios de produção.

A desconcentração dos meios de produção propiciou a valorização da igualdade de oportunidades, ou seja, todo "burguês" que empreendesse um "negócio" que desse certo e que tivesse mercado para seu produto (ferraduras) ou serviço (ferrador de cavalos, por ex.) se tornava independente, dono dos seus ganhos e com poder tanto de contratar "empregados" despossuídos para aumentar sua capacidade de produção / atendimento, quanto de influenciar politicamente o estado gestor, que passou a desenhar e redesenhar incessantemente os mapas geo-políticos a partir de então. A Revolução Industrial ocorreu, portanto, num ambiente propício ao seu desenvolvimento, a partir do momento em que "burgueses" empreendedores e enriquecidos passaram a investir na invenção e aperfeiçoamento de máquinas e equipamentos capazes de criar produtos cada vez mais novos e sofisticados para a época, comercializáveis para um número cada vez maior de cidadãos que acabaram se tornando ou empregadores ou "empregados", retroalimentando assim o sistema "capitalista" de produção, uma vez que prevaleceu o pagamento do "trabalho" com dinheiro.

As técnicas de gestão tiveram então também que ser aperfeiçoadas, uma vez que o contingente de "empregados" se multiplicava nas "empresas" e as relações de mando se complicavam na condução dos processos de produção. A Administração Científica, formulada por Taylor e Faiol e posta em prática imediatamente com sucesso por Henry Ford em sua fábrica de automóveis, marca o início da "ciência da administração", tão fermentada até nossos dias. Estes pesquisadores foram seguidos pelos estudos de Hawthorne de Elton Mayo, pelas teorias motivacionais de A. Maslow e de F.Herzberg e tantas outras abordagens que procuraram, neste século, compreender e elucidar a questão da qualidade da relação das pessoas com seu trabalho e, principalmete, com o meio e condições em que trabalham.

A questão que se colocava basicamente até então era: como conseguir promover um ambiente em que, pessoas "expropriadas" de seu poder de decisão e de opinião e ocupando apenas a sua força física para produzir algo que, na maioria das vezes, não lhe interessava ou lhe era inacessível, em troca de uma remuneração monetária fixada por outrem (governo / mercado / etc), sujeito a condições de trabalho inegociáveis e a chefias voluntariosas e autocráticas, pudessem obter o mínimo de satisfação e se sentir motivadas para produzir com qualidade e baixos custos, além de se comprometer com o crescimento do negócio que era do outro ? Não é à toa que a cultura popular passou a considerar o "trabalho" algo desagradável, imposto, penoso e, muitas vezes, infrutífero. Sem desprezar o fato que, no Brasil, temos em nossa história um período "negro" de escravidão que marcou a relação do "trabalho" com seu promotor com requintes adicionais de crueldade e subserviência total.

A história empresarial recente tem mostrado que a criação e fortalecimento de Sindicatos representativos, o aperfeiçoamento das leis trabalhistas, a criação de órgãos de previdência, assistência e amparo ao trabalhador, o enorme e crescente valor de investimentos aplicados em cursos e atividades de desenvolvimento tanto de gerentes para que evoluam em suas práticas de comando, quanto nos "empregados" para que ampliem a sua capacitação, são todos frutos de uma incessante busca de aperfeiçoamento e viabilização de um modelo secular que traz consigo um equívoco original e seus diversos efeitos colaterais.

O equívoco se trata de esperar que uma pessoa abra voluntaria e impunemente mão de sua condição de autonomia e de auto-gestão de sua vida (sobrevivência e melhoria da qualidade de vida própria e de sua prole) em troca de remuneração e benefícios, para aplicar o melhor da sua capacidade física ou mental na viabilização do sucesso do outro ou do negócio do outro.

É ao reequacionamento desta equação que estamos assistindo e participando neste final de década, uma vez em que empresas bem sucedidas neste mercado altamente competitivo, informatizado, globalizado, pluralista e até autofágico, vicejam iniciativas gerenciais pautadas por princípios "corajosos" e inovadores (na linha da frase do Jack Welch em epígrafe) que valorizam e devolvem ao sujeito que trabalha a dignidade do pensar, do se sentir responsável por seus atos, do poder pesquisar e buscar novas soluções por conta própria, de poder obter e vibrar com seus sucessos e aprender com seus erros, de poder participar e ser ouvido, de poder projetar na organização onde trabalha suas expectativas, suas marcas e símbolos e, ao perceber que são recebidas e valorizadas, consente que sejam metabolizadas com as expectativas, marcas e símbolos da organização da qual faz parte. Embora esquisito, o termo "pertencimento" parece ser a chave para nos livrar de vez do equívoco acima citado: o negócio do outro passa a ser também próprio.

Dentro deste contexto o termo "trabalho" resgata o seu sentido mais puro e gratificante, uma vez que, embora não detentora dos meios de produção, cada pessoa pode atuar plenamente, pode aplicar toda a sua força, a sua inteligência e a sua vontade num projeto comum que gera resultados para todas as pessoas envolvidas: o cliente, o acionista, o "empregado" e a comunidade.

E é baseado nesta abordagem que surge o termo "Empregabilidade" como uma nova forma de enxergar o trabalho como uma ação que está inteiramente sob o domínio de cada pessoa, a quem cabe descobrir, desenvolver e aperfeiçoar um conjunto de aptidões e habilidades que agreguem valor a empresas e a outras pessoas e que sejam interessantes a ponto de serem desejadas para realizações conjuntas.

Emprego não é dádiva, não é favor, não é algo concedido sob restritas condições, não é algo que deve condicionar a realização do trabalho, que deve apenas impôr limites. As empresas esgotaram este modelo criando metodologias de aperfeiçoamento das técnicas gerenciais ao extremo até alguns anos atrás, para chegarem à conclusão que precisavam conquistar a vontade das pessoas em quererem fazer algo com qualidade total, baixo custo e perene. E a vontade ainda é algo inalienável e incontrolável de fora para dentro.

Não vivemos mais dias em que alguém "procura emprego" como tantos ouvimos falar ou falamos há anos atrás, esperando uma "vaga" que lhe permitisse "trabalhar" para ganhar o sustento, independente da área ou tarefa que fôsse, já que quase nunca vivemos uma condição de pleno emprego em que as pessoas pudessem escolher onde trabalhar e o que fazer. Não é mais a empresa que emprega, não cabe mais à empresa "dar emprego" a ninguém e sim buscar no mercado pessoas competentes e de alta empregabiidade nas mais diversas áreas para atender as necessidades mútuas e gerar produtos e serviços que satisfaçam as necessidades humanas.

Empregar é um verbo ativo, significa investir, direcionar, aplicar competências na realização de um trabalho que faça sentido e que com o qual a pessoa se compromete de corpo e alma porque se torna para ela desafio e não tarefa, porque ela o deseja e não apenas o aceita, porque ela sente que será realizado sob condições justas para si e não sob condições impostas.

E esta ação cabe a cada pessoa enquanto agente de sua história, dotada de aptidões e de um potencial inesgotável a ser desenvolvido. Desenvolvimento este que também não cabe mais apenas à empresa propiciar ou estimular, e sim a cada pessoa que deve definir para si o patamar de crescimento, de auto-conhecimento e de aperfeiçoamento que quer atingir nas diversas áreas de atuação, e buscar os meios para tal aproveitando as oportunidades que as empresas oferecem, mas não se limitando a estas.

Estamos na era do auto-desenvolvimento, em que cada pessoa toma para si o gratificante desafio de auto-conhecer mais, de avaliar autonoma e constantemente seu grau de prontidão e de domínio das ciências, técnicas e procedimentos, seu grau de felicidade e de prazer de viver e de realizar. E em seguida de buscar, promover ou aproveitar os meios para tal, que hoje mais do que nunca estão à nossa disposição, em maior amplitude e menor custo.

É assim que estaremos de "volta ao trabalho" como atividade humana e humanizante, como atividade transformadora da realidade e realizadora do potencial que possuímos, como atividade gratificante não porque apenas remunerada, mas porque geradora de auto-estima e de auto-confiança, enfim, como atividade que deixa marcas registradas da capacidade realizadora da pessoa durante a sua existência nesta, que pode ser muito prazerosa, aventura da vida.

Psic. João Roberto de Paula Domingues - 31/01/99





Boletim SeniorNet nº42

Editorial



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