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Senioridade

Artigo publicado no ' O Globo' apresenta mais um dos sinais de que a sociedade terá que reaprender a viver com os seus

 

 

 

Nós somos os “novos velhos”.

A SeniorNet sempre trabalhou com a noção de que esta geração que está envelhecendo será a de transição entre o velho dependente e o maduro produtivo e de boa qualidade de vida.

A notícia abaixo, divulgada pelo O Globo, apresenta apenas um dos sinais desta transição.

A sociedade terá que reaprender a conviver com os seus velhos e maduros. Para falar bem diretamente, nós ensinaremos a sociedade a nos respeitar e aproveitar as nossas contribuições, até quando pudermos.

 

O FÔLEGO DA TERCEIRA IDADE: SEGURADOS DO INSS RESPONDEM POR ATÉ 60% DO MOVIMENTO DE PEQUENOS MERCADOS NO INTERIOR

07/11/2004


Dinheiro de benefícios irriga sertão nordestino


Aposentados e pensionistas sustentam famílias pobres e garantem a sobrevivência durante o período da seca






AFOGADOS DE INGAZEIRA, Pernambuco. Natural da cidade sertaneja de Quixadá, no Ceará, e conhecedora desde criança das mazelas provocadas pela seca, a escritora Rachel de Queiroz costumava dizer que a aposentadoria na área rural representou a “abolição para o trabalhador do campo” e que o dinheiro dos benefícios sustentava a economia de pequenas vilas e cidades. Ela estava certa. Em municípios como Afogados de Ingazeira e Tabira, no Sertão de Pernambuco, é o dinheiro da Previdência Social que irriga o comércio das cidades e mantém as famílias no campo. Autoridades, sindicatos e os próprios trabalhadores rurais são unânimes em afirmar que, sem ele, haveria caos social provocado pela fome.



Para a grande maioria dos sertanejos que moram nas áreas rurais dos dois municípios, a sobrevivência depende dos mais velhos. Eles sustentam filhos, netos e até bisnetos com o benefício do INSS. É o caso de Manoel Alexandre Pereira, de 66 anos, e da mulher, Maria de Lourdes Ramos, de 62. Lavradores desde os dez anos, os dois se aposentaram e hoje sustentam oito de seus 12 filhos, além da grande maioria dos 32 netos e um dos três bisnetos.



— Deus dá no inverno, mas, quando não dá, tudo fica difícil, ninguém tem o que comer. O lucro do sítio tem sido pouco e, se não fosse o INSS, a gente já teria morrido de fome — afirma Maria de Lourdes, que mora com a família no sítio Jati, a 20 quilômetros do Centro de Afogados de Ingazeira.



A situação de Maria Eunice de Souza, de 59 anos, que mora no sítio Alto Vermelho, não é diferente. Trabalhando com a enxada desde os dez, ela hoje sustenta, com o dinheiro que recebe do INSS, o marido (que ainda não conseguiu se aposentar), três filhos e uma neta.



— Nesse tempo não há emprego na roça. A família toda depende só desse dinheiro e nada mais — conforma-se, enquanto deixa quase todo o seu dinheiro em um mercadinho, no Centro de Afogados de Ingazeira.

Baixo número de postos
de trabalho agrava miséria

Eunice enche o carrinho com arroz, feijão, fubá, sardinha, carne apresuntada em lata, leite em pó, biscoitos, sabão em barra, detergente e até papel higiênico, considerados artigos de luxo para os padrões do lavrador sertanejo. É que na caatinga a espuma de lavar a louça e do banho muitas vezes ainda vem da raspa do caule do juazeiro; o sabugo de milho chega a ser usado no lugar do papel higiênico; e a dieta normalmente se restringe a feijão e farinha.



Com um número menor de pessoas da família para sustentar — a mulher Maria de Lourdes Barbosa, de 43 anos, e a filha Tatiana, de 11 — Antônio José dos Santos, de 64 anos, diz que a terra seca rende pouco e que o trabalho informal em fazendas próximas ao sítio onde reside, o Alça de Peia, lhe garantia apenas R$20 por semana para cuidar de seus animais. Depois que se aposentou, a vida mudou.



— Dizem que esse dinheiro dos aposentados é amaldiçoado, mas pra nós é uma bênção. Se não fosse ele a gente já tinha morrido de fome — afirma Antônio.



Enquanto aguarda em uma casa lotérica o pagamento do seu benefício, o agricultor João Macena Marcelino da Silva, de 64 anos, resume sua situação:



— Só com a lavoura não dava para sobreviver. Sem esse dinheiro a situação era horrível — diz ele, que sustenta mulher, quatro filhos e quatro netos.



Para José Patriota, assessor da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Agricultura (Contag), aposentadorias na área rural constituem o maior programa de distribuição de renda do país. A prefeita de Afogados de Ingazeira, Giselda Simões (PMDB), diz que o dinheiro da Previdência é o que mais contribui para o aquecimento da economia do seu município e para o sustento de “boa parte da população”. Segundo Giselda, o dinheiro dos aposentados é o maior peso do comércio em Afogados, fato confirmado pelos mercadinhos da cidade, que fica a 380 quilômetros de Recife.



— Posso dizer que 60% do meu movimento se dão entre os dias 1 e 5, justamente o período de pagamento dos aposentados — afirma a comerciante Maria Sidine Nunes de Lima, proprietária do mercadinho Ideal, onde, dos cem clientes cadastrados para comprar fiado, pelo menos 80 são os disputados idosos.

Aposentados têm crédito
pré-aprovado no comércio



Diretor da Associação de Supermercados de Afogados de Ingazeira, que congrega 40 lojas da cidade, o comerciante Antônio Aparício Veras também atribui à renda gerada pelo pagamento de benefícios do INSS 60% do movimento mensal de sua loja:



— Antes, o pagamento do INSS era feito até o fim da primeira quinzena de cada mês e a gente tinha um movimento equilibrado. Agora, é tudo feito de uma só vez e, depois do dia 6 de cada mês, quando acaba o pagamento, a gente entra numa espécie de recessão branca. Por esse motivo venho quitando as promissórias dos fornecedores até o dia 5 de cada mês — afirma Veras.



Veras é dono do C&V, onde Eunice fez suas compras, no mesmo dia em que retirou no banco seu benefício de R$260. Já ia deixando R$196 no mercadinho quando percebeu que não conseguiria passar o mês com os R$64 restantes. Pediu, então, para pagar fiado R$40. Foi atendida de imediato. Tanto em Afogados como na vizinha Tabira, o cartão do aposentado mostrado ao caixa já é documento suficiente para formalizar o “pendura”, o que pode ocorrer até mesmo nas feiras. O crediário é informal, baseado na confiança.



— Basta exibir o documento e já está tudo resolvido. O sertanejo é bom pagador — diz Veras.

Nas duas cidades, a Previdência injeta mais recursos nas prefeituras no comércio do que o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), formado por recursos arrecadados com o IPI e o Imposto de Renda e repassados pelo governo federal às administrações municipais. Segundo Álvaro Sólon de França, autor do livro “A Previdência Social e a Economia dos Municípios”, Afogados de Ingazeira recolhe por ano cerca de R$5 milhões em FPM, mas irriga a economia com R$21,4 milhões provenientes dos seus 6.760 aposentados, dos quais 81% residem na área rural.



Volume de dinheiro da Previdência supera o do FPM



Em Tabira, a 405 quilômetros de Recife, a situação não é diferente. Os 4.159 aposentados rendem R$13 milhões ao comércio, mas a parcela do FPM que a prefeitura recebe não chega R$4,5 milhões. De acordo com França, essa situação não é exceção em Pernambuco:



— O dinheiro da Previdência supera a arrecadação do FPM em 160 dos 185 municípios pernambucanos.



França afirma que essa tendência aumentou entre 2002 e 2003 e poderá crescer ainda mais. O chefe do INSS em Afogados de Ingazeira, Paulo Henrique de Luna, informa que, a cada mês, são concedidas 600 novas aposentadorias na região do escritório local do INSS, que abrange 12 municípios. Só em Tabira são 500 por ano, conforme o presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais, João Batista de Santana.



França mostra que a tendência que vem se observando em Pernambuco começa a ocorrer também no país. O estudo anterior produzido pelo especialista mostrava que 3.546 dos 5.561 municípios brasileiros repassavam por ano aos seus aposentados volume de recursos superior à arrecadação de FPM. Os números aumentaram: agora são 3.773 cidades que recebem maior volume de dinheiro com as aposentadorias do que o repasse de FPM.

Jornal: O GLOBO

Autor:  

Editoria: Economia

Tamanho: 1322 palavras

Edição: 1

Página: 33

Coluna:

Seção:

Caderno: Primeiro Caderno

 



© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

 

 





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Editorial



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