Desabafo de um aposentado – Orlando Sabka.

Por : Aguinaldo Neri Publicado em 12 de novembro de 2014 Eu também tenho direitos

Sentir-se inútilth-1[1]

É triste chegar à velhice e sentir-se um inútil, após décadas de trabalho duro, gerando renda para as empresas, impostos para o Estado e sustentação para si e sua família. A decadência inicia com a aposentadoria, com o famigerado fator previdenciário que a cada ano vai diluindo o poder aquisitivo da aposentadoria, a ponto de em dez a doze anos receber o equivalente de no máximo três salários mínimos, quando de sua aposentadoria recebia em torno de oito a dez, pois a cada ano o INSS tem pagado menos do que a inflação do ano anterior, e nenhum centavo do aumento do índice do PIB, que deveria ser incorporado como ganho real. E com a velhice os gastos com medicamentos são maiores e constantes, alguns de valores elevados.

Nos tempos de trabalho na iniciativa privada havia altos salários, fazendo jus ao cargo e todo ano se programava as férias, de preferência para as praias do Sul, Itapema e Camboriú, por exemplo, visitar os parentes por uns três a quatro dias. Trocava-se de carro regularmente e ainda havia um pouco de dinheiro na poupança. Tínhamos conforto, vida digna e a felicidade estampada no semblante dos demais familiares. Era gratificante.

Os anos foram passando, os filhos mais velhos partiam em busca de realizar seus sonhos, de formar seu próprio ninho, seguindo em frente para conseguir sua independência profissional e financeira. É a lei da vida, dos pés no chão, da continuidade. As férias já não eram mais frequentes, como também a troca do carro. Tudo passou a ser devidamente regrado, pois os valores da aposentadoria já não permitiam mais o antigo padrão de vida. Permanecer em casa era e é como um castigo, um prêmio às avessas, em face das circunstâncias atuais. Muitos “amigos” que frequentavam nossa casa sumiram, permanecendo apenas os poucos e verdadeiros, os quais podem ser contados nos dedos da mão direita que, na realidade são uma bênção divina, pois são autênticos, enquanto que os outros, assim que entraram em nossa vida em dias de opulência, debandaram rapidamente, pois nunca fizeram a mínima falta. Qualidade no lugar de quantidade. Comprar um carro novo virou utopia, pois a aposentadoria não me permitia mais esse luxo e isso vem acontecendo com a maioria dos aposentados. Viajar em férias se tornou um sonho distante, muito distante.

Mas a tristeza não é somente por causa dos fatos acima citados, mas também pelo não reconhecimento da experiência vivida ao longo de muitos anos e por falta de oportunidade na velhice em poder partilhar experiências com os mais jovens, como também pela insensibilidade dos Congressistas em não revogar a maléfica e prejudicial Lei do Fator Previdenciário, que aos poucos está matando os aposentados, tirando a sua decência de envelhecer com dignidade, como cidadãos que trabalharam décadas com honestidade por um Brasil melhor e mais humano. Hoje vivem no anonimato, considerados um peso para o Governo, pois deixaram de gerar lucros, apenas impostos sobre os alimentos que consomem. É uma triste realidade.

Os senhores Congressistas não vivem esse drama que os aposentados vivem, pois recebem altos salários e auxílios mirabolantes dos mais diversos, a fim de manter um padrão de vida invejável em torno de R$ 1.6 milhão ao ano e, quando se aposentam, os valores são altíssimos. Curioso e intrigante, basta pouquíssimo tempo na política para que isso aconteça. As benesses são pra lá de generosas. Ao trabalhador brasileiro é em torno de três décadas de trabalho e para ele existe o INSS e o SUS, um programa de saúde que deixa tudo a desejar, enquanto que, para os políticos existe o magnífico Hospital Sírio Libanês em São Paulo, referência no Brasil e também clínicas especializadas com tudo pago com o dinheiro do contribuinte. Nós os elegemos para nos servir, mas se servem da melhor maneira possível, mais as benesses que o poder oferece sem nenhum pudor. Pertencem a uma classe dominante, onde todos se protegem de comum acordo, incluindo aí os Três Poderes da República.

Trabalhador x político a distância é quilométrica em termos de ganhos, pois os políticos aprovam leis em benefício próprio, a ponto de serem escandalosas, mas eles não dão a mínima importância, enquanto que o salário mínimo continua sendo salário muito aquém das reais necessidades do trabalhador brasileiro, de modo que levam meses para aumentar alguns centavos, enquanto que o aumento para os políticos apenas alguns minutos, sempre na casa dos 2 a 3 dígitos. Já os aposentados, como sempre, continuam com o pires na mão, na esperança de alguma providência a seu favor. São relegados ao segundo ou terceiro plano.

Isso demonstra a não valorização do ser humano, do trabalhador e do aposentado, do atrelamento ao sistema cruel que existe no capitalismo selvagem que persiste, ganância, poder e acúmulo cada vez maior de riquezas por parte de uma minoria. O capital deveria ser humanizado, de modo que todos pudessem se beneficiar de acordo com o seu trabalho, intelecto, produção e assim por diante, como um todo, empregados e empregadores, nas devidas proporções.

Enquanto isso o trabalhador, a indústria e comércio pagam altíssimos impostos para manter essa máquina infernal chamada de Governo que, ao invés de trabalhar em favor de nossa gente, o retorno é mínimo em todos os setores da vida diária dos brasileiros, com consequências fatais para muitos deles, mas as remessas sigilosas para países como Cuba, Venezuela, Equador e diversos países africanos, onde imperam ditaduras de esquerda, os valores enviados são de bilhões de dólares, sem que nós brasileiros possamos tomar conhecimento, pois o governo alega como sigilosos. E isso acontecendo numa democracia, no mínimo é suspeito, de que modo isso acontece, pois deveria haver transparência total. Esperamos que isso mude o mais rápido possível, como também esperamos que a roubalheira do dinheiro público e a impunidade sejam varridas do país.

Em face de tudo isso, sendo eu mais um entre milhões de aposentados pelo INSS, sinto-me impotente e inútil, sem os devidos meios para reagir e elevar a autoestima, tão somente externar a indignação e sugerir melhorias através de artigos e comentários através da imprensa escrita, que muito nos honra o jornal A Tribuna de Rondonópolis, nos cedendo valioso espaço para publicação, como também através das mídias sociais e do meu blog “www.jjbrazil2.blogspot.com.br”.

Observamos que, na maioria das vezes, são palavras jogadas ao vento, sem o devido acolhimento das autoridades, mas registradas nos anais da história. Milhares de pessoas tomam conhecimento dos mesmos. Notamos também que a maioria dos leitores está na mesma situação que eu. Nossos brados não chegam às autoridades constituídas, encasteladas no poder como se nada estivesse acontecendo ao redor. Elas não vêm ao nosso encontro em busca dos nossos desejos e anseios, motivo pelo qual aqui fica registrada a nossa insatisfação e total indignação.

“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

ORLANDO SABKA
E-mail: osabka@terra.com.br

Rondonópolis/MT, outubro de 2014.

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