Resgate.

Por : Aguineri Publicado em 5 de agosto de 2018 Contribuições de Assinantes

RESGATE
Fabiano Possebon
16/05/2018

Esta história se passa numa tarde.
Alfredo trabalha numa grande imobiliária, no centro de uma megalópole. Tem sua salinha particular, minúscula. Está com a mesa abarrotada de papéis, assoberbado de serviço, o computador está ligado.
Está trabalhando e, de repente, é assenhorado por uma grande melancolia. Sente um tédio enorme, uma vontade de desaparecer, deixar tudo para trás.
“Nossa! Não, não dá para continuar trabalhando. Não estou conseguindo me concentrar. Vou falar para o chefe que estou com muita dor de cabeça, eu volto amanhã”.
E assim o fez.
Pegou o carro, começou a dirigir sem um rumo certo.
Durante o trajeto começa a pensar em sua mãe. “Como tive coragem de deixá-la sozinha! Morando sozinha! Todo esse tempo e nunca fiz uma visitinha. Só porque ela me ofendeu, nunca mais a procurei. Por que todo esse melindre?! Por que estou agindo assim? Afinal de contas, ela é minha mãe. Preciso perdoá-la. Por que guardar toda essa mágoa?!!! Vou visitá-la”.
Alfredo para o carro, desce, vai até uma lojinha comprar um presente para sua mãe. Adquire uma estatueta da Virgem Maria. Repara que tem lá um setor de livros usados. Vê que sobre uma mesa onde está sentada uma garota, há uma pilha de livros.
Começa a folheá-los. Lê o título de um: “A Importância do Perdão”.
Pergunta à jovem se aquele livro está à venda. Ela responde afirmativamente.
“Estou precisando disso. Veio a calhar. Vou levá-lo”.
Quando bate à porta da casa de sua mãe, ela começa a chorar, ele também. Se abraçam. Ela lhe serve um café, lhe oferece um bolo.
Sua mãe reclama que se sente muito só. “Mãe, também me sinto só. Estou desgostoso com meu serviço. Não tenho mais vontade de voltar lá”.
“Alfredo, ensaiei tantas vezes ir até sua casa, seu trabalho. Queria pedir perdão. Não tive coragem de ir. Tive medo de que você não me perdoasse”.
Se abraçam novamente, choram. “Mãe, vamos esquecer tudo. Colocar uma pedra em cima de tudo isso. Faz parte do passado. Não falemos mais nisso”.
Sua mãe diz: “ A lojinha que seu pai montou, venda de autopeças, continua do mesmo jeitinho que ele deixou. Nossa! Já faz seis anos que Mario partiu. Alfredo, ele queria tanto que você tocasse a loja, mas você nunca se interessou”.
“Mãe, eu tinha outros planos, queria estudar. Mas, nunca imaginei, meu Deus, que fosse ficar tão chateado assim com meu serviço. Não está me acrescentando nada. Fico trancado numa salinha o dia todo, não vejo ninguém. Olha, agora me ocorreu uma ideia. É… é isso mesmo. Isso mesmo, mãe. Vou tocar essa lojinha do pai. Compro mais material. Preciso mudar de vida, não aguento mais. Aquele trabalho me sufoca, me causa mal estar, já deu o que tinha de dar. Aqui terei oportunidade de conversar com as pessoas. Vou fazer isso mesmo”.
A mãe sorri: “Seu pai ficaria contente. Vem morar aqui. Eu ajudo você no que for preciso. Podemos trabalhar juntos”.
Alfredo abraça a mãe, a beija.
“Ah! mãe, eu me esquecendo. Tenho um presentinho para você. Acho que vai gostar”.
Entrega-lhe a estatueta. Ela o abraça, começa a chorar.
Alfredo assim o fez. Saiu da Imobiliária, reabriu a loja, encontrou a felicidade. Nunca mais sentiu tédio, melancolia, se encontrou, estava mesmo precisando de liberdade, de novos ares.

Fabiano Possebon <sfapossebon@hotmail.com>

%d blogueiros gostam disto: