Cada vez mais presentes no mercado de trabalho, idosos chefiam 25% dos lares no Estado do Rio

Maior participação mostra principalmente que eles estão em melhores condições de saúde

RIO – “Posso realizar desejos bastante bons de viagens e ajudar minhas filhas quando elas precisam”. A explicação da professora de educação artística Elisabeth Correa, moradora de Botafogo, para o fato de continuar trabalhando aos 77 anos é parte da realidade de outros 432 mil idosos da Região Metropolitana do Rio, a mais envelhecida do país. Eles são a parcela de idosos economicamente ativos da região, representando 36% do total de pessoas com mais de 60 anos, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, realizada em 2011. De 2001 até o ano passado, esse grupo cresceu 78,5%, dando mais peso à participação dos idosos na economia metropolitana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mesmo período, a população acima de 60 anos em todo o Estado do Rio que continua no mercado de trabalho — empregada ou à procura de uma vaga — cresceu 58%. O resultado de tanta labuta? Cerca de um quarto dos responsáveis por domicílios, seja no estado (24,6%), na Região Metropolitana (24,9%) ou na cidade do Rio (27%), é de idosos, de acordo com o Censo 2010. No Brasil todo, as pessoas com mais de 60 anos respondem por 21,9% dos domicílios.

O GLOBO começa neste domingo, véspera do Dia Nacional do Idoso, a publicar uma série de reportagens sobre o grupo que deu ao estado fluminense a condição de segundo mais velho do Brasil no Censo 2010, com 13% de sua população sendo formada por idosos, perdendo apenas para o Rio Grande do Sul, com 13,6%. Foi nesse estado do Sul do país que nasceu a professora Elisabeth, moradora do Rio desde 1967. Além de dar aulas duas vezes por semana no Colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, Elisabeth ministra um curso de pintura em seu ateliê três dias por semana. A renda das aulas complementa a aposentadoria recebida do município. E o trabalho é recompensado com viagens frequentes: quase todo fim de semana ela vai com o marido para Itaipuaçu, onde o casal tem uma casa. No ano passado, visitaram Brasília e fizeram um tour pelo Rio Grande do Sul. Em 2009, viajaram por dois meses pela Europa.

— Com esse ganho extra, fico mais folgada para satisfazer meus desejos. Este ano, pudemos reformar a nossa casa em Itaipuaçu — conta ela.

Mais saúde, mais tempo de trabalho

A primeira explicação para a maior participação do idoso na economia é o próprio envelhecimento da população, segundo a economista e demógrafa Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O crescimento do número de idosos ativos no estado (58%) e na Região Metropolitana do Rio (78,5%) entre 2001 e 2011, no entanto, superou o aumento da população de idosos em geral no mesmo período: no estado, o grupo cresceu 41,1% e na Região Metropolitana, 41,3%. Para Ana Amélia, a maior participação deles no mercado de trabalho mostra principalmente que eles estão em melhores condições de saúde. A participação deles também tem sido estimulada por um boom na demanda por mão de obra.

— A gente dizia que quem perdia emprego depois dos 50 anos passava dificuldade por causa do preconceito contra o trabalho dos mais velhos. Agora vemos uma reversão disso, por conta de um apagão de mão de obra, como no ramo da engenharia. Outra questão é que, com as menores taxas de fecundidade, há menos jovens no mercado. Uma das soluções é manter os trabalhadores mais tempo na ativa. Para isso, é preciso capacitar os idosos para lidarem com as mudanças tecnológicas — afirma a especialista em envelhecimento. — A grande proporção de idosos como chefes da casa mostra que há um agrupamento familiar em torno deles. A renda desses idosos é muito importante no orçamento. Isso tem a ver com a falta de rendimento dos filhos adultos.

No Estado do Rio, 69,5% da renda dos domicílios dependem do que é ganho pelos idosos, segundo a Pnad 2011. No Brasil, esse percentual é 64,5%.

Aos 86 anos, o morador de Copacabana José Ricardo dá aulas de inglês, usando música, para alunos com mais de 60 anos, de segunda a sexta-feira. E não tem planos de parar. Casado e pai de três filhos, ele explica que, por ter morado muito tempo fora do Brasil, a aposentadoria não é suficiente — permite pagar apenas condomínio, luz, gás e telefone. José diz que ensinar é, para ele, como um remédio.

— Com o trabalho, me mantenho entusiasmado. Acho fundamental para envelhecer bem — afirma.

Para Ana Amélia, uma grande vantagem do trabalho nessa fase é a possibilidade de integração social. Ela lembra que o encerramento da carreira leva, muitas vezes, à depressão:

— Quando param de trabalhar, os homens ficam mais perdidos que as mulheres, que têm mais facilidade de se integrar, fazendo viagens, saindo e cuidando da família.

A moradora de Botafogo Geísa Guerra Mourão, de 72 anos, viúva há dez, sabia exatamente o que faria quando se aposentasse. Em 1998, ela passou a produzir artesanato, que já chegou a representar 70% do seu orçamento. Hoje, depois de reduzir a atividade extra, o artesanato gera 20% dos seus rendimentos. Esse dinheiro é usado no lazer. E, para divulgar as peças que vende, Geísa usa o Facebook. Morando com um filho, ela é a responsável pelas contas da casa:

— Sempre fui muito independente e agora não está sendo diferente.

A Federação do Comércio do Rio (Fecomércio-RJ) fez uma pesquisa, entre os dias 12 e 14 deste mês, no município do Rio, com 364 pessoas com mais de 55 anos, para traçar o perfil desses consumidores. Eles gastam 50% da renda com alimentação, 22,1% com remédios, 11,7% com aluguel e 8% com plano de saúde.

— É uma população que está se alimentando melhor, vivendo mais, cuidando mais da saúde e trabalhando mais. Para o comércio, é um grupo com alto poder aquisitivo, que começa a ter atendimentos especializados — avalia o economista Christian Travassos, da Fecomércio-RJ.

Já o presidente da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis (ABIH-RJ), Alfredo Lopes, estima que o público da terceira idade que deixa a capital para se hospedar no interior represente 20% do total de clientes nos dias úteis. Um movimento que dobrou nos últimos cinco anos.

Fonte: Site do jornal O Globo.

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