Estamos nos anos dourados?(Fabiano Possebon – contribuição)

ESTAMOS NOS ANOS DOURADOS?

 

Fabiano Possebon

 

 

“Existe uma idade de ouro da humanidade ou ela é só construção mental de quem vive insatisfeito em seu próprio tempo?”

 

Luiz Oricchio in Jornal “O Estado de São Paulo”, comentando o filme “Meia Noite em Paris”

 

“Se você teve sorte o bastante de ter vivido em Paris quando jovem, por onde for pelo resto de sua vida, a cidade fica com você, pois Paris é uma festa ambulante”

Ernest Hemingway

 

Neste artigo, pretendo falar um pouco sobre o longa-metragem mais novo de Woody Allen, o de número 41, que está fazendo muito sucesso, intitulado MEIA-NOITE EM PARIS.

Eis uma pequena sinopse – Gil Pender (Owen Wilson, de “Marley e Eu”) é um jovem roteirista de cinema norte-americano que se sente fracassado e sonha escrever seu primeiro romance, sonha ser um escritor consagrado . Vai à Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams), que não combina com ele em nada, pensam de modo muito diferente. Ele deseja morar em Paris, mas ela chega a dizer uma certa hora “Eu não viveria em outro lugar a não ser os Estados Unidos”. Gil é apaixonado pela Paris dos anos 1920.

A história se passa em 2010, e à meia-noite ele acaba voltando no tempo, na sua tão sonhada Paris dos anos 20. Lá encontra-se com o casal Zelda e Scott Fitzgerald (estão numa festa dada em homenagem ao escritor Jean Cocteau), Cole Porter está tocando “Let´s do it” no piano. Encontra também a dançarina Djuna Barnes, Ernest Hemingway, Picasso, Luis Buñuel, Gertrude Stein, Ray Man, Salvador Dalí – todos figuras que se tornaram ícones daquela geração, a chamada “geração perdida”, no dizer de Stein.

Gil acaba se apaixonando por Adriana (Marion Cotillard), que foi amante de três pintores famosos: Picasso, Modigliani e Braque. Então, ela era, o que poderíamos chamar de uma “Maria Aquarela”, ou “Maria Paleta”? Como preferirem.

Adriana, por sua vez, também gostaria de ter vivido em outra época, a chamada “Belle Époque” (início do século XX). Em certo momento do filme, para lá vão os dois. Acabam encontrando os pintores Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Este último, afirma uma certa hora que gostaria de ter vivido na Renascença, que essa sim havia sido a verdadeira Idade de Ouro.

No fim, Gil Penter volta ao presente, com o encorajamento literário de Gertrude Stein e a certeza de que o ontem, com seu irresistível charme, é só um concorrente desleal.

O amor, a vida, o tempo, a insatisfação do ser humano, a arte, tudo isso é discutido por Allen.

O filme quer mostrar que estamos sempre insatisfeitos, não importa em que época vivamos.

A verdade é que cada um tem um momento preferido do ontem. Não há outro jeito a não ser lidar com o presente e trazer do passado o que interessa para que sejamos felizes no hoje.

Gil acaba desistindo de se casar com Inez e encontra um novo amor – a francesa Gabrielle.  Gabrielle é, podemos dizer assim, uma porta para um mundo de possibilidades no presente, poderíamos dizer que ela é a porta da esperança para Gil.

O comecinho do filme é super interessante, pois passeamos pela cidade de Paris, ao som de um clarinetista. Surgem na tela uma sequência de imagens, verdadeiros cartões-postais, do nascer ao pôr do sol, Paris com sol ou com chuva. Vamos saboreando bonitos flashes de pontos turísticos da cidade.  Isto faz com que nós os espectadores nos apaixonemos pela Cidade Luz.

Mas, que bom se pudéssemos fazer mesmo uma viagem no tempo, na Paris dos anos 20, que foi a Idade de Ouro de Paris. Será que foi? Ela era, realmente, plena de escritores, artistas e personalidades que, poderíamos dizer assim, deram o pontapé inicial para muito do que hoje existe em termos de arte.

Woody Allen faz uma bonita homenagem à Paris e também ao cinema. Ah! O cinema e sua magia! Só ele mesmo permite um passe de mágica tão belo! De repente, sem pedir licença à lógica ou dar maiores explicações à plateia, uma historinha que parecia banal sobre um casal visitando Paris muda radicalmente do presente para o passado, a fim de que o protagonista possa mergulhar no mundo onírico, ir atrás de um sonho perdido em outra época, pórem cheia de glamour.

Uma pergunta que fica: Por que, às vezes, desistimos de um sonho? No filme, por exemplo, Gil tinha o sonho de ser um escritor, mas o troca por uma outra atividade mais remunerada – roteirista. Será que desistimos de um sonho para evitar a dor de um fracasso?

O jovem volta no tempo ideal (no que ele considera ideal) para beber na fonte dos artistas e dos escritores pelos quais nutria grande admiração. Descobre na viagem que uma personagem daquela época – Adriana, sua grande paixão, estava insatisfeita, admirava tempos de outrora. Então, o retorno ao passado pode ser uma porta ilusória? Ela apenas dá vazão a uma reprimida e doce nostalgia?

Será que, alguma vez, já traímos algum sonho que tenhamos desejado ardentemente? Este filme de Woody Allen faz reflexões nesse sentido.

Fico pensando cá com meus botões: Quem não gostaria de ser Gil Penter e conviver por algumas horas com tantos gênios das artes?!!

A música de Cole Porter – “Let´s do it” (ou “Let´s fall in love”) perpassa toda a película, a ouvimos toda hora. Vou colocar alguns trechinhos traduzidos

“Mas por que pássaros fazem?

Abelhas fazem? Até pulgas educadas fazem?

Vamos fazer, vamos nos apaixonar

(…)

Pessoas dizem que em Boston até os feijões fazem

Vamos fazer, vamos nos apaixonar

(…)

Centopeias sentimentais fazem

Enguias elétricas, devo acrescentar, fazem. Embora isto as choque, eu sei.

As mais refinadas joaninhas fazem…

Vamos fazer, vamos nos apaixonar”

 

Vou falar resumidamente sobre algumas personalidades que aparecem no filme

SCOTT FITZGERALD

 

Escritor ianque, nasceu em 1896 e morreu em 1940. É considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX.

Nos anos 1920, muda-se com sua esposa Zelda para Paris, onde conclui seu mais célebre romance – O GRANDE GATSBY, que descreve a vida na alta sociedade, com uma aguda reflexão crítica.

Muito tempo depois, já com a saúde abalada pelo alcoolismo, Fitzgerald muda-se para Hollywood e acaba trabalhando como roteirista cinematográfico. Em 39, começa a escrever seu derradeiro romance, intitulado O ÚLTIMO MAGNATA, publicado postumamente em 41.

Outra obra famosa sua chama-se “SUAVE É A NOITE”. O filme “O Estranho Caso de Benjamin Button” (estrelado por Brad Pitty e Gwenet Paltrow) é baseado em um conto de Fitzgerald.

Hemingway sempre o criticava por só retratar a alta sociedade.

O casal Fitzgerald viveu sempre uma relação de muito amor, e ódio ainda mais, viviam entre tapas, beijos e bebedeiras. Zelda sempre com crises de ciúmes, dando escândalos.

Depois de um colapso nervoso, ela acabou enlouquecendo, esteve internada em vários manicômios. A Sra. Fitzgerald escreveu um livro só: “Esta Valsa é Minha”, considerado por alguns autobiográfico.

 

GERTRUD STEIN

 

A escritora Stein nasceu nos Estados Unidos em 1874 e faleceu em Paris em 1946.

Estudou Psicologia com William James e Henri Bergson. Viveu algum tempo na Áustria, depois mudou-se para Paris.

O salão de sua casa era o ponto de encontro de pintores e escritores de vanguarda, apenas para citar dois: Picasso e Matisse. Ela ajudava Hemingway na criação de seus manuscritos.

 

LUIS BUÑUEL

 

Nasceu na Espanha em 1900. Trabalhou com Dalí, de quem sofreu forte influência na sua obra surrealista. Chegou a fazer um filme junto com ele – “Um Cão Andaluz”. Depois se separaram porque Dali defendia a igreja e também o regime ditatorial, os quais Buñuel era radicalmente contra.

Dali passou a vida toda tentando fazer um outro filme junto com Luís Buñuel, mas este nunca mais topou.

Buñuel também se afastou de García Lorca, não tolerava a homossexualidade do amigo.

Quando adolescente, se tornou ateu e anticlerical, após ter estudado em um colégio jesuíta. No final da vida, esteve mais próximo da religião, fez bastante amizade com um padre.

Foi ele o fundador do primeiro cineclube espanhol, em 1920.

Em 25, foi viver em Paris, onde estudou cinema e trabalhou como assistente de vários diretores.

Morou algum tempo nos Estados Unidos e também no México.

Suas obsessões eram: amor louco, anticlericalismo e crítica à moral burguesa, conservadora e hipócrita, assim como as bases morais que a apoiam.

Para retratar isso se vale sempre da linguagem da fantasia.

Certa vez escreveu: “(…) Um filme é como uma simulação involuntária do sonho. A noite que lentamente invade a sala do cinema equivale ao ato de fechar os olhos; começa então na tela do próprio interior do homem a incursão na noite do inconsciente; as imagens, como no sonho, aparecem e desaparecem, dissolvem-se e escurecem; o tempo e o espaço tornam-se flexíveis, e retraem-se e dilatam-se à vontade; a ordem cronológica e os valores relativos à duração já não correspondem à realidade…”

“Meia-Noite em Paris” é bem isso. Podemos afirmar que Buñuel é o melhor representante do surrealismo na arte cinematográfica.

O diretor espanhol bebia e fumava muito. Deixou uma autobiografia intitulada “Meu Último Suspiro”.

Em 67, filmou “A Bela da Tarde”, sobre uma jovem burguesa (Catherine Deneuve), frígida com o marido e que se prostituía no período vespertino.

Eis o título de algumas obras suas: “O Discreto Charme da Burguesia”, “Tristana”, “Veridiana”, “Este Obscuro Objeto do Desejo”, “O Fantasma da Liberdade” – pequenos episódios surrealistas se sucedem à maneira de um sonho, e “O Anjo Exterminador”, que o filme de Woody Allen faz referência. Em certo momento, Gil sugere a Buñuel a temática daquela película. “O Anjo Exterminador” retrata vinte pessoas da alta sociedade, que depois de cearem em uma mansão, não conseguem mais sair de lá. A misteriosa prisão prossegue através dos dias; em meio à morte, doença, fome e sede, enquanto  moradores e hóspedes vão despindo suas convenções, tanto na aparência física quanto no comportamento.

 

ERNEST HEMINGWAY

 

Nasceu nos Estados Unidos em 1899. Nobel de Literatura em 54.

Em 52, publicou O VELHO E O MAR, considerado sua obra-prima, depois levado às telas, tendo Spencer Tracy no papel principal.

Escreveu, entre outros, “Ter ou Não Ter”, “O Sol Também se Levanta”, “Por Quem Os Sinos Dobram?” (Gary Cooper e Ingrid Bergman foram os atores principais do filme) e “Adeus Às Armas” (a primeira versão foi com Rock Hudson),”Paris é uma Festa”, “As Neves de Kilimandjaro”.

Viveu algum tempo em Cuba e também na Espanha. Sempre ia à África caçar. Seu pai foi suicida. Sua mãe era muito autoritária. Em certa ocasião, ela mandou-lhe de presente, pelo correio, a arma que o pai usara para se matar. Hemingway pensou: O que será que ela quis dizer com isso? É para eu usá-la? É para guardá-la de lembrança? Ele sempre levou uma vida muito boêmia e foi casado quatro vezes. Duas netas suas viraram atrizes. Hemingway se matou com um rifle em 1961.

O tema suicídio já aparecia com muita frequência em seus escritos, cartas e conversas.

Prestem atenção nos diálogos que Woody Allen bolou para ele no filme. São muito interessantes! Bem como o são os de Dali, Buñuel, Gertrud Stein, aliás, todos eles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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