Número de empreendedores individuais acima dos 60 anos surpreende até o Sebrae-MG

Geórgea Choucair – Estado de Minas

O pintor Adenir dos Santos, de 63 anos, deixou de ser autônomo esta semana. Ele passou a ter a empresa própria, com Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), emissão de nota fiscal e mais chances de buscar crédito no mercado. Santos é agora empreendedor individual e busca maior inserção no mercado de trabalho, depois de atuar por 30 anos como pintor. “Na idade em que estou, as empresas não querem mais contratar com carteira assinada. E pretendo continuar a trabalhar depois que me aposentar. Com a empresa, posso emitir nota fiscal pelo serviço e pagar valor menor ao INSS”, diz Santos.

O pedreiro faz parte do grupo de 4,73 mil pessoas entre 61 e 70 anos que se tornaram empreendedores individuais no estado, segundo levantamento do Sebrae Minas. “Foi uma surpresa agradável para a gente ver a vontade de empreender e formalizar das pessoas mais idosas, que não querem atuar na clandestinidade”, afirma Jefferson Amaral, analista de políticas públicas do Sebrae Minas. A lei do empreendedorismo individual entrou em vigor em julho de 2009. Segundo o Sebrae, elapode beneficiar cerca de 10 milhões de empreendedores no Brasil, com pagamento reduzido à Previdência, maior acesso ao crédito, possibilidade de emissão de nota fiscal e de participar de licitações públicas.

“O objetivo é trazer formalização e inclusão social pela Previdência”, observa Amaral. No mercado de trabalho da Grande Belo Horizonte, a minoria dos ocupados com 60 anos ou mais tem carteira assinada ou é funcionário público. Eles representam 40,2%, ou 38 mil pessoas, do total de 94 mil idosos. O restante (56 mil trabalhadores) está em outras posições.

A doceira Maria das Graças Alves, de 60 anos, também deixou de ser apenas vendedora de cocadas aos colegas de faculdade, nas ruas do Bairro de Lourdes, no Mercado Novo, Velho e nos shoppings populares de Belo Horizonte. Ela agora é empreendedora individual, com CNPJ e negócio com nome: Flor & Sabor. E os planos de Maria das Graças são ambiciosos. Ela quer comprar uma máquina de ralar coco, construir nova cozinha em casa, fazer etiquetas para suas bandejas de cocada e comprar um carrinho para conseguir transportar mais produtos para a rua. Alguns sonhos ela já realizou, como fazer vendas com cartão de crédito. “Aceito passar qualquer valor na maquininha. R$ 1, R$ 2 ou R$ 5”, diz.

Maria das Graças foi obrigada a reerguer o barracão do zero depois de ter visto o imóvel, no Bairro Tijuca, ser destruído em função de uma chuva de granizo. “Minha cozinha foi toda atingida e perdi meus computadores e impressora, o que me atrapalhou nos trabalhos da faculdade”, conta. A doceira estuda direito no UniBH, com bolsa 100% custeada pelo governo. A conquista, segundo ela, contou com uma mãozinha do ex- presidente Lula. “Quando ele veio a Belo Horizonte inaugurar o Bolsa-Família, coloquei uma carta de 13 páginas no bolso dele. Pedi o direito de voltar a estudar, que era meu sonho. Tinha passado na faculdade, mas estava proibida de pegar livros na biblioteca, pois devia a mensalidade, que hoje custa quase R$ 1 mil”, conta. Depois de 15 dias, ela foi recebeu funcionários do Uni em sua casa , enviados para fazer uma sindicância. “Perguntaram para minha filha, marido e vizinhos quais eram os motivos pelos quais eu deveria ganhar a bolsa”, lembra.

Cotidiano

A doceira fabrica cocadas há 25 anos. Ela acorda todos os dias às 5h, vai para a faculdade e depois sai para vender as bandejas de doces. No cardápio das cocadas, há grande diversificação de sabores: acerola, kiwi, maracujá e branca, além da versão diet. Cada bandeja com três unidades é vendida por R$ 3. Às vezes, ela chega a vender 20 bandejas. “Se tivesse como transportá-las, poderia vender mais”, diz ela, que é conhecida pela freguesia como Graça da Cocada. Os doces são produzidos duas vezes por semana: às quintas e aos sábados. Maria conta que faz de 30 a 40 quilos de cocada por semana. “O segredo é trabalhar com amor, experiência e escutar a opinião do cliente. E sempre levo bandejas de degustação”, diz.

A ideia de ter a empresa própria é antiga. Maria das Graças sempre frequentou feiras de empreendedores. “Sempre ia de barraca em barraca para saber das novidades”, afirma. Hoje, ela está mais otimista com os negócios. “Me tornei uma pessoa respeitada. Sou uma microempresária”, diz.

O prestador de serviços Edivaldo Alves completa 60 anos em julho e já tomou uma providência: virou empreendedor individual. “Parece que fiquei com mais responsabilidade e visão melhor do futuro”, diz Alves. Ele conta que sempre foi autônomo, mas nunca teve rigor no pagamento da Previdência. “Agora, como o valor pago é menor, voltei a contribuir”, diz. Na lista de sonhos do microempresário está a participação em concorrência públicas.

Fonte: (Site Estado de Minas)

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