Percebo que estou envelhecendo quando……………..

Aguinaldo Neri

1.Rio de mim mesmo e das coisas que dizem sobre envelhecer, sem nenhum traço de penalização ou vitimização.

Outro dia uma amiga enviou uma pérola internética atribuída ao Juca Chaves.

Mais ou menos assim: quando estico as pernas, ouço “crec”. Quando estico o pescoço, ouço “crec”. Quando endireito as costas, ouço “crec”. Concluo que não sou velho. Sou “crocante”. Ótimo, Juca.

2.Começo a ter a clara noção de que algumas coisas que eu considerava imprescindíveis há algumas décadas hoje são apenas interessantes ou importantes. Escolho o que fazer e priorizo o que me dá prazer e eu acho importante. Não preciso ler tudo nem saber de tudo o que está acontecendo. Sei que alguém mais jovem fará isso por mim. Sei o que eu preciso saber para viver bem. Convivo bem com o fato de estar 5 anos à frente  em alguns assuntos que me interessam e estar desatualizado em relação à vários assuntos que interessam mais aos jovens. Bendita seletividade que ganhei com a maturidade.
Estou jogando bem o jogo do envelhecimento: perco algumas habilidades, mas ganho outras e descubro que o segredo da vida está no equilíbrio e na harmonia entre forças e fraquezas.

3.Percebo que já não faço tantos planos com o foco em mim. Não tenho mais tanto interesse por cargos e sim por consolidar projetos iniciados e deixar marcas nos que iniciarei nos próximos anos.

Penso mais em abrir espaços para novos profissionais e passar o que sei para alguns mais próximos. Quero fazer só aquilo que eu gostar.

Hoje sou avô da Helena, da Luisa e do Lucas. Ainda posso ter outros. Cheguei ao ponto mais alto da minha carreira: avô.

Um dos meus novos objetivos está mobilizando muitas forças em mim: quero estar presente e por minhas próprias pernas na formatura dos meus netos. Como o Lucas só tem 3 meses…………….e  ainda tenho uma filha solteira……………preciso estar em forma. Acho que agora voltarei para a Academia, com mais força.

4.Quando percebo que estou preocupado com os nossos jovens que estão se perdendo no caminho, principalmente pelas drogas. Agora sou voluntário na Instituição Padre Haroldo, aqui de Campinas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estranho ouvir pessoas da minha idade com planos de “não fazer” nada na vida depois da aposentadoria. Caramba. Venham para a nossa Instituição. Precisamos de muita gente para ajudar. A causa é boa e o salário já foi ganho nas últimas décadas.

5.Quando me emociono ao ver minha netinha ajudando minha esposa a compor o meu bolo de aniversário. Hoje fiz 65 anos!!!!

Sou um especialista em comer bolos de aniversários, mas o de hoje………………mexeu comigo.

6.Sinto que estou ficando velho, no meu trabalho de docente universitário, quando tenho muito o que falar sobre um determinado assunto. Eu vivi o começo daqueles assuntos. Eu estava lá. Eu li os primeiros textos e, em alguns casos, escrevi os primeiros textos. Fico feliz quando indico um livro que foi escrito por algum aluno meu.

7.Não me acostumei ainda, a ser chamado de “velho”. Acho esquisito. Parece que não é comigo. Principalmente quando um jovem me chama de “véio”, destilando preconceito e maldade. Gostaria de não ser rotulado de nada.

No ano passado tive um problema de ortopedia e até hoje não engoli o que o experiente médico falou, com todo o respeito: pois é, professor……”gastou”. A cartilagem gastou? É, de tanto usar. Essa doeu.

8.Percebo, também, que estou ficando velho quando começo a prestar mais atenção nos amigos e amigas. Eles são meus espelhos e testemunhas da minha trajetória. É com eles que eu posso avaliar o antes e o agora, para planejar o depois. É com eles que eu brinco sobre idade e vamos nos “cutucando” até quando pudermos.

Eu poderia listar uma centena de situações que me fazem perceber que estou ficando velho, mas vou parar por aqui, dando o seguinte testemunho: Nunca estive tão bem em minha vida!!! Estou no auge da minha competência intelectual e profissional. Sou uma pessoa respeitada e com projetos interessantíssimos para as próximas décadas.

Troquei algumas atividades para ajustar minhas atuais limitações e possibilidades. Não parei nada. Só ajustei algumas atividades físicas, sociais e profissionais para melhor conforto pessoal.

Escreverei outros textos sobre este assunto na medida em que eu for percebendo novos sinais de que estou envelhecendo.

É claro que aceitarei dicas também. Afinal de contas, conheço muita gente que teria um prazer enorme em mostrar os meus sinais de envelhecimento. Geralmente focalizando as minhas perdas. Só não me acostumo com o liquido viscoso que escapa pelos lábios deles quando querem apontar alguma limitação geralmente atribuída a idade.

Este povo não tem como ser satisfeito. Comecei a trabalhar aos 14 anos e sempre tinha alguém que falava: Com essa idade e já trabalhando?

Agora ainda encontro gente que diz: Com esta idade e ainda trabalhando?

Vá entender esta turma.

 

Campinas, 20 de novembro de 2012.

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