Poesia da nossa infância, na voz de Paulo Autran

Casimiro José Marques de Abreu nasceu e morreu em Barra de São João, no estado do Rio de Janeiro. Filho de um imigrante português enriquecido às custas do comércio, Casimiro estudou em Nova Friburgo e depois foi para Lisboa, contra a própria vontade, estudar comércio. Em Lisboa entrou em contato com o meio intelectual, mas logo adoeceu e retornou ao Brasil, onde iniciou sua produção literária.

 Escreveu para alguns jornais e graças a essa tarefa conheceu Machado de Assis. Em 18 de Outubro de 1860, quando tinha apenas 21 anos, faleceu vítima de tuberculose. A poesia de Casimiro de Abreu é marcada por dois traços fundamentais: o pessimismo decorrente do mal-do-século e o saudosismo nacionalista, que se revela na melancolia produzida pela saudade da terra natal e da infância.

Graças a um lirismo já gasto, às rimas repetitivas e uma linguagem simples, Casimiro de Abreu transformou-se em um dos poetas mais populares do Romantismo brasileiro. De toda a sua produção poética, que está reunida na obra “As Primaveras” (1859), destaca-se o poema “Meus oito anos”, que segue abaixo:

“Ó, que saudade que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

A sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias

De despontar da existência!

-Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é – lago sereno,

O céu – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’ amor!

Que auroras, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’ estrelas

A terra de aromas cheia,

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

Ó! dias da minha infância!

Ó! Meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

Da minha mãe as carícias

E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberto o peito,

Pés descalços, braços nus.

Correndo pelas campinas

À roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos

Já colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar.

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo,

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!

Ó! Que saudades que tenho

Da aurora da minha vida

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

A sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!”

Antigamente (parece coisa de gente velha…) se declamava muita poesia, principalmente de grandes mestres como Casimiro de Abreu e outros. Versos de grande sentido, naquela época em que ainda se morava em casa com quintal (ontem passei o dia em uma casa dessas). Logicamente a “geração apartamento” não deve compreender bem as invocações do poeta.

Hoje, nem sei, se as Escolas ainda falam de Casimiro de Abreu. Porém, certamente, uma apresentação como essa é difícil de superar. Ninguém o fez como o genial e saudoso artista Paulo Autran: Melodia, ritmo e emoção inigualáveis.

Tags: No tags

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *