Qualidades dos profissionais maduros se contrapõem ao imediatismo da Geração Y

Geração Y costuma mudar de emprego com facilidade

Antônio Graciano do Nascimento é um exímio bombeiro e eletricista. Aos 63 anos, ele vem de um tempo onde começava-se cedo a aprender a profissão. Seu primeiro emprego foi aos 9 anos, ainda menino. Desde a experiência como aprendiz em pedreira na Grande BH, lá se vão 54 anos na estrada, mas o bombeiro não está cansado. Ele aguarda pela aposentadoria, que deve chegar nos próximos meses, mas parar não está em seus planos. Há pouco menos de um ano, Antônio foi convidado a assumir o cargo de bombeiro em uma empresa de Belo Horizonte. Trocou Congonhas pela capital. Ele entrou no lugar de um profissional mais jovem. Evitar a rotatividade é um dos objetivos das empresas ao contratar os mais velhos, seja em cargos operacionais ou de alta qualificação. “Os funcionários mais velhos ajudam a diminuir o entra e sai na empresa. Os mais jovens mudam de emprego por qualquer R$ 50 a mais no salário”, afirma Modesto Araújo, diretor-presidente da Drogaria Araújo.

A Araújo lançou o programa “Mulheres Resolvidas” para estimular as mães que já têm os filhos criados a voltar para o mercado de trabalho, na função de operadora de caixa. “A pessoa mais madura não fica arriscando muito. Ela permanece mais tempo no serviço, se relaciona melhor com o cliente e valoriza os benefícios gerados pela empresa. O retorno é maior”, explica Araújo.
Levantamento da Hays – empresa especializada em recrutar profissionais para média e alta gerência – mostra que a chamada terceira idade tem contribuído para fazer o Brasil crescer. Segundo o estudo, 20% das empresas brasileiras contratam aposentados para assumir cargos técnicos. O levantamento aponta também que 50% dessas contratações acontecem em função da necessidade de mão de obra especializada, com vivência na área de atuação e experiência em projetos específicos.

A busca acelerada por mão de obra em ritmo superior à capacidade do país de formar esses trabalhadores abriu as portas para os mais experientes. A capacidade gerencial, a experiência e a habilidade para ensinar a equipe valem ouro em setores como a construção civil, que experimentou forte aquecimento nos últimos cinco anos. Teodomiro Diniz Camargos, presidente da construtora Diniz Camargos, diz que os profissionais com mais tempo de vida ocupam cada vez mais espaço em empresas novas e tradicionais, principalmente nos cargos administrativos, técnicos, como calculistas e também engenheiros. “São profissionais de altíssima qualidade, disputados pelo mercado.”

Na prancheta

No lugar de computador, pranchetas para fazer projetos. A mesa do arquiteto Jessé Guimarães de Brito, de 77 anos, é diferente da dos colegas de escritório. “O computador não é do meu tempo”, afirma. No jargão dos jovens, ele seria um analfabyte (analfabeto nas novas tecnologias). Mas sem nenhum constrangimento, Brito afirma que prefere e é mais rápido no projeto feito à mão. “No computador, é preciso colocar um ponto e outro para fazer linha. Eu faço a planta mais rápido na mão”, afirma. Brito é professor aposentado pela UFMG e há cerca de um mês foi contratado por um ex-aluno para o escritório de arquitetura. “Tenho 50 anos de formado. Acho que posso contribuir com a experiência. Acho que não podemos parar. Se paramos, enferrujamos”, afirma.

O arquiteto Oscar Ferreira é dono do escritório que contratou Brito. “Ele tem conhecimento e a calma necessária para resolver as coisas. O jovem é muito imediatista. Há uma inquietude que não é frutífera”, observa Ferreira. O funcionário com mais idade tem ainda a humildade maior, na avaliação de Ferreira. “O jovem tem menos curiosidade. Mas acho importante mesclar as faixas etárias. Aí temos a juventude e a maturidade”, diz.

Cargos técnicos saem na frente

A contratação de profissionais que voltam ao mercado é percebida principalmente em cargos técnicos, segundo levantamento da Hays: 72% das empresas recrutam aposentados para essa função. Outros registros são em cargos de diretoria (33%), gerência (28%), conselho (17%) e presidência (6%). “Os maiores de 60 são agregadores e, geralmente, em suas áreas há menor incidência de conflitos”, diz Raphael Falcão, gerente da Hays no Rio de Janeiro. Ele pondera que os mais velhos ajudam a conter o temido apagão da mão de obra. Em tempos de pleno emprego, não há contingente suficiente para responder à demanda do mercado. “Vemos crescimento em áreas como as engenharias e telecomunicações.”

As vagas estão abertas para os aposentados também em cargos operacionais, que não requerem formação superior. Glaucus Botinha, diretor do grupo Selpe, consultoria em recursos humanos, aponta que sempre que o mercado de trabalho está aquecido as oportunidades crescem para essa faixa etária. A maior parte das contratações acontece no setor de serviços (50%), seguido pelo comércio, 25%, segundo a Selpe. “Os mais velhos têm maturidade, paciência, perfil que combina com atendimento ao público, e atividades de apoio. São profissionais focados e com grande bagagem”, diz Botinha.

Antônio Graciano não vê dificuldade para conseguir trabalho. Sua renda mensal, de aproximadamente R$ 1,8 mil, é importante para a família. Além da esposa, moram com ele três filhos e dois netos. “Está fácil conseguir trabalho porque os jovens não se interessam pela área de hidráulica.” Mas Antônio tem planos que não vão mudar quando o benefício da Previdência Social chegar. Ele ainda espera a oportunidade de trabalhar como encarregado em sua área e, no futuro, vai intensificar projetos independentes, como o de construir padrões e projetos elétricos para Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig).

A mineradora MMX também tem oportunidades para maiores de 60 anos. Em seu quadro, conta com os profissionais tanto nas áreas operacionais quanto em cargos executivos. “Os profissionais com mais de 60 anos têm muito a contribuir para a empresa, pois além de oferecerem decisões mais assertivas para o negócio, promovem o desenvolvimento de novos profissionais por meio da multiplicação do conhecimento”, comentou a mineradora em nota.

Renascimento 

A artista Eliana Martins, de 65 anos, fez o caminho inverso da maioria dos profissionais. Ela tem cinco filhos e sempre foi dona de casa. Casou-se aos 21 anos e aos 26 parou de trabalhar. Mas depois que os filhos começaram a sair de casa, Eliana conta que passou por momentos de muita tristeza e solidão. O vazio foi preenchido com a pintura. “Cheguei a ficar de cama, em casa, com a saída dos meus filhos, mas a pintura me deu a alegria de continuar a vida”, diz.

A artista já pintou cerca de 50 quadros, vendidos por valor de R$ 700 a R$ 3 mil. Em seu ateliê, no Bairro Buritis, ela retrata nas telas o cotidiano de cidades do interior, com quermeses, trucos no bar e procissões. As pernas e braços dos personagens são longos. “Acho que retratam a vontade de liberdade da artista. Antes vivia em uma prisão de portas abertas pela família. Abri mão de muita coisa, pois me dedicava 24 horas por dia aos filhos. Mas sinto agora que o meu direito de viver é o mesmo de uma criança que acaba de nascer”, reflete Eliana.

Fonte: Site do jornal Estado de Minas

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