Trabalho que gera vida

O trabalho foi, sem dúvida, um dos motivos pelos quais Niemeyer viveu tantos anos, sem perder o amor pela vida e a lucidez.

Um dos traços marcantes da personalidade de Oscar Niemeyer, falecido na quarta-feira aos 104 anos (ele completaria 105 no próximo dia 15), é a entrega irrestrita ao trabalho, identificado por ele não como causa de contrariedade e estresse, mas como fonte inesgotável de desafios, invenções e conquistas. Niemeyer trabalhou para viver e viveu para trabalhar, no sentido mais abrangente dessas proposições. Mas não havia nisso nenhum sentido de sacrifício, já que, como asseverou em diversas ocasiões, só conseguia conceber o ofício de imaginar e dar forma a prédios, monumentos e espaços públicos como expressão de prazer e criação.

 

 

 

 

 

 

 

Esse foi, sem dúvida, um dos motivos pelos quais Niemeyer viveu tantos anos, sem perder o amor pela vida e a lucidez — versão confirmada pela segunda esposa, Vera Lúcia, com quem o arquiteto se casou em 2006, dois anos depois do falecimento de sua companheira de 76 anos de casamento, Annita Baldo. No aniversário de 104 anos de Niemeyer, Vera declarou: “Isso absorve a cabeça dele, ele está sempre pensando em algum projeto novo ou na revista [ela se referia ao periódico cultural Nosso Caminho, lançado pelo casal em 2008.”

Trabalho criativo e realização profissional são ótimos para preencher a mente e evitar doenças psicossomáticas. No caso de Niemeyer, o prazer de criar teve o condão não só de mantê-lo vivo e bem, mas de manter seu espírito jovem. A juventude, no sentido de entusiasmo, energia, interesse pela vida, era uma das características desse homem que cresceu, estudou e se casou nas primeiras décadas do século 20. É impressionante constatar como era jovem, aos 104 anos, alguém que testemunhou duas guerras mundiais, três revoluções, o surgimento do rádio e da TV, o movimento modernista na literatura, a construção e a derrubada do Muro de Berlim, a ascensão e a queda do império soviético, a consagração de sua obra no Brasil e ao redor do mundo.

Além de enaltecer a necessidade de uma busca pessoal pela realização profissional — que envolve, inclusive, um esforço consciente para repensar a relação do homem com o trabalho em uma perspectiva mais ampla do que a da simples sobrevivência –, o exemplo de Niemeyer lança uma luz sobre a população idosa do Brasil, que é crescente.

Contemporâneos do famoso arquiteto — e, assim como ele, contribuindo para puxar a média de idade dos brasileiros para cima –, havia no País, em 2010, 24.236 homens e mulheres com mais de cem anos. É um número modesto, para um universo de 190 milhões de pessoas, mas significativo neste momento em que a distribuição etária dessa mesma população começa a mudar radicalmente, com o número de pessoas com mais de 60 anos caminhando para superar o de crianças e adolescentes.

O Brasil deu alguns passos importantes para assegurar os direitos de homens e mulheres de terceira idade, com o Estatuto do Idoso e (ainda tímidas) políticas afirmativas. Mas é preciso avançar mais, para que essas políticas saiam da órbita do assistencialismo e sejam colocadas a serviço da reinserção plena da pessoa idosa em todos os setores da sociedade — o que, obviamente, não exclui a dimensão profissional.

O trabalho na terceira idade — em muitos casos, uma imposição dos baixos valores pagos a título de aposentadoria — não deve ser visto necessariamente como um problema, a menos, é claro, que a pessoa não tenha condições físicas ou mentais de exercê-lo ou seja submetida a condições indignas. Oferecer um horizonte de vida produtiva ao homem e à mulher com mais de 60 é um desafio para governantes e empresários, que, em alguns segmentos — como o de executivos –, já sinalizam para uma revalorização dos veteranos, não por alguma preocupação humana ou social, mas pelos ganhos em qualidade que a experiência pode proporcionar.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul

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