Velhice não é doença

Ficar mal humorado(a) ou ranzinza, isolar-se e perder a alegria não são sinais naturais do avanço da idade, como muitos supõem. Podem ser sintomas de depressão, patologia normalmente negligenciada nessa fase da vida. Perda de apetite e alterações no peso também devem ser avaliados

Na sala de aula do ensino fundamental, o professor de Ciências descreve, sem poesia, o ciclo dos seres vivos. “Eles nascem, crescem, se reproduzem e morrem.” Sem drama ou comédia, o exposto é um caminho pelo qual a maioria dos animais passa, inclusive o ser humano. Nascer como criança, crescer como um adulto, ter seus herdeiros e esperar, placidamente, pelo único mal irremediável. A velhice, sob esse prisma, é o período dominado pela sensação constante de que o fim está próximo, que tudo já foi feito e, com fé, a morte virá tranquila e rápida.

Os idosos foram crianças que aprenderam a encarar a terceira idade assim. Seus filhos, da mesma forma, com o agravante de jamais pensarem que um dia estarão como os pais. Entre resignação e revolta, grande parte deles encara a tristeza de não poder fazer o que sempre fazia. Pensa que sofrer é o débito de se ficar tanto tempo vivo. E que, sendo assim, perder o ânimo é algo natural, uma consequência que os velhos têm de aceitar. O detalhe é que, para todos os médicos, esse quadro da velhice é mentiroso. E o reforço social dessa imagem, mesmo entre os idosos, é um dos maiores motivos para a depressão ser uma doença tão prevalente — e tão negligenciada — na velhice.

“As pessoas acham natural o velho ficar isolado, deixar de fazer as coisas de que gostava, se retrair socialmente porque ele envelheceu, não imaginam que ele está é deprimido. Alguém de mais idade, sem problemas de saúde, tem condição de fazer tudo o que fazia antes”, garante Sabri Lakhdari, diretor científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). De acordo com o especialista, a depressão é uma doença frequente entre aqueles que já passaram dos 60 anos. Sua prevalência é explicada, também, pela dificuldade de os idosos e familiares perceberem os sintomas como algo patológico e não uma consequência da velhice.

“Lutamos para que a sociedade perceba que envelhecer não é ficar doente”, pede Lakhdari. Casos como o do pai que se tornou ranzinza e reclamão ou da mãe que começou a se irritar constantemente podem esconder um quadro depressivo, pois as características da doença na terceira idade têm diferenças das que se veem no adulto jovem. Em palestra durante o último Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, em maio, o psiquiatra Jerson Laks, coordenador do Centro para Doença de Alzheimer do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falou sobre as comorbidades associadas ao idoso depressivo.

“Há um aumento muito maior de problemas de incapacitação e menor independência para a realização das atividades diárias. O velho depressivo terá maior necessidade de suporte social que aquele sem depressão”, explicou. Ele comenta que o estigma da velhice somado ao da doença mental faz com que até mesmo pacientes que percebem o problema o considerem comum e, dessa forma, não busquem tratamento. A aposentada Celina de Souza, 70 anos, sabia que algo estava errado, só que, cada vez menos, tinha forças para fazer algo.

Após sofrer um acidente, teve a patela quebrada em quatro lugares, o que exigiu uma cirurgia para reconstituí-la. “Vivia em um prédio com escadas e, mesmo antes da intervenção, já não podia descer. Sempre fui uma pessoa muito ativa e aquela situação foi me tirando o prazer de viver”, lembra. Não foi preciso muito tempo para que a tristeza a fizesse afundar. Celina desenvolveu uma depressão profunda e a ela faltavam forças para fazer qualquer atividade. Essa forma da doença tem maior prevalência nas mulheres, devido a fatores metodológicos (maior propensão a relatar sintomas), psicopatológicos (maior vulnerabilidade para eventos estressantes) e sociais (por exemplo, discriminação de mulheres no mercado de trabalho).

“Meu único desejo era ficar deitada. Desaprendi até a sentar. Para comer, era preciso que alguém me segurasse. No dia em que descobri a doença, meu filho e meu sobrinho tiveram que me tirar do carro porque eu não queria sair dele.” Mas, por sorte, Celina teve apoio dos parentes. A presença da família é imprescindível tanto para perceber o problema, caso o idoso se recuse a aceitar o diagnóstico, quanto para criar um ambiente favorável à ressocialização do paciente depressivo. “Nunca sofri preconceito por ser idosa e isso é algo importante. Tive total amparo da minha família, que nunca me deixou desistir”, completa Celina.

A velhice é, antes de tudo, uma conquista e ser obrigado a pensar que a tristeza é parte inerente dela soa como uma destruição de tudo que foi construído nos anos de juventude. “Ninguém se vê como uma pessoa que vai ficar idosa. Isso faz parte do estigma. Ninguém vê também, dentro de sua curva de possibilidades de vida, que possa vir a ter depressão”, diz Jerson Laks. Mas, a maioria ficará idosa e todos podem vir a ficar deprimidos. As rugas no rosto não podem levar ninguém a aceitar a depressão como um problema de idade. Ela tem tratamento.

(Fonte: Correio Braziliense)

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