Artigo

Francisco Baqueiro – um Consultor de RH com alma de artista.

Ouvindo o artista Francisco Baqueiro, ex-executivo de RH e ex-Consultor de RH.

1. O Francisco Baqueiro de hoje é um artista sensível e criativo que vive da sua arte. O Baqueiro Consultor de RH já sabia que este Chico existia?
R.: Com certeza o Consultor sabia deste outro lado (embora não valorizasse isso conscientemente), pois muito antes da atuação como consultor, gostava de desenhar e, um pouco mais tarde, por volta de 1990, começaria a experimentar a pintura (óleo sobre tela). Na época isso não passava de curiosidade ou mero passatempo.
2. A Senioridade trabalha com pessoas que se reinventam para viver uma velhice mais tranquila e saudável. É este o seu caso?
R.: Eu diria que houve, sim, uma autorreinvenção, embora não de forma articulada, arquitetada, dirigida e controlada. Foi orgânica, de certa forma, meio que natural, na medida em que foi se transformando numa válvula de escape para as pressões do trabalho e das responsabilidades crescentes impostas pela vida. As atividades artísticas com as quais eu lidava, além de aliviar a carga do momento, eram prazerosas e desafiadoras (desafios me estimulavam e me motivam a experimentar e superar novos limites).
Em parte, sim, mas a nova atividade, após minha aposentadoria, foi também uma forma de busca de um complemento de renda, não só de satisfação ou tranquilidade. Além dessa questão de renda extra, o afastamento do trabalho (que também me proporcionava muito prazer, pois eu sempre gostei do que fazia profissionalmente), me levou a buscar com intensa dedicação, algo que me mantivessem ativo, produtivo e útil ao meu entorno. A sensação de ser procurado para pintar um quadro, seja pintura ou marchetaria, confeccionar uma moldura sob encomenda, ou vender algo qualquer que eu tenha criado, me traz uma forte sensação de realização. Na verdade, estar na ativa, na minha opinião, é muito mais continuar a vida, sem racionalizá-la ou ficar ponderando a respeito da sua cronologia. A questão da qualidade de vida, isso sim se torna extremamente importante nessa virada, muito embora isso represente menor tranquilidade, na medida em que passamos a assumir mais desafios e responsabilidades e compromissos com a qualidade de nossas entregas. Não se trata de recusar a velhice ou não aceitá-la, mas de não ser derrotado por ela. Claro que o ritmo diminui, a destreza motora torna-se mais limitada, novos cuidados e maior zelo são requeridos ao empreendermos determinadas atividades, porém isso não deve arrefecer nosso entusiasmo ou ânimo.
3. Quais competências do Chico anterior você está usando hoje?
R.: Entendendo competências, de forma simplificada, como nossa capacidade de entregar aquilo que é demandado pelo contexto no qual existimos e que nos demanda, levando em conta o grau de complexidade crescente imposto pelo mundo atual, ser competente é exercer nosso espaço ocupacional ou nossa capacidade de sermos quem somos potencialmente, de forma a contribuirmos com um mundo melhor. Isso passa por nos tornarmos uma pessoa melhor, independentemente do nosso grau de significância na sociedade. O meu processo de envelhecimento demandou competências como continuar a ser capaz (mais do que fui no passado) de entender ou fazer uma leitura da realidade que me permitisse não só me adaptar ao novo, como perceber que algumas das velhas formas de lidar com a realidade não me serviam mais ou não eram as mais adequadas. Isso me levou a lapidar minha capacidade de mudar rapidamente, testar novas formas de me tornar produtivo, de sofrer menos e fazer sofrer menos aqueles ao meu redor. Passei a valorizar outras coisas, sem perder de vista meus princípios anteriormente desenvolvidos e adotados. Não deixei de ser perseverante e de tolerar como natural o desgaste do recomeço, quando algo não deu certo. Busquei aperfeiçoar minha capacidade de relacionamento interpessoal e de superar frustrações advindas de decepções em relação ao comportamento das pessoas, entendendo que talvez minhas expectativas é que estivessem equivocadas. Finalmente, desenvolvi e alimentei novas parcerias, mais adequadas e alinhadas aos meus novos interesses ou necessidades. Por ter atuado como profissional de T&D, aprendi a criar, estruturar e aplicar cursos para os mais diversos públicos. Hoje utilizo essa habilidade para criar cursos na minha nova área de atuação, inclusive assessorando um excelente marceneiro de Vinhedo, que em contrapartida me abriu portas para desenvolver um curso de Iniciação à Marchetaria Artística, que deverá ser aplicado em breve.
4. Quais foram os momentos mais difíceis desta transição?
R.: Com certeza um dos mais difíceis e dolorosos foi ser, de certa forma, preterido pelo contexto anterior, em que atuei profissionalmente por décadas, até entender que algo tinha que mudar, que não faria sentido continuar insistindo em tentar reviver tudo que me proporcionou satisfação e realização pessoal e profissional no passado. Aquele mundo sinalizava não precisar mais de mim ou de minhas competências, além disso enfrentei sérios dissabores em relação às práticas de empresários e gestores de empresas que atendi, de ordem ética e moral, envolvendo gestão de pessoas. Isso me levou a abandonar de vez minhas atividades anteriores e a me dedicar à arte, embora ainda sem objetivos e expectativas definidas. Outra dificuldade foi conviver, por um bom tempo, me dedicando a uma área de atividade a respeito da qual não tinha domínio dos mecanismos, princípios e padrões de funcionamento, nem conhecer pessoas a ela ligadas, que pudessem me ajudar a queimar etapas e caminhar mais rápido. Tive que investir tempo significativo e os poucos recursos que tinha para fazer cursos e participar de eventos que me proporcionassem algum crescimento, e assim tem sido.
5. Quais os momentos mais prazerosos que você vive hoje? Valeu a pena?
R.: Um dos momentos mais prazerosos dessa nova etapa da minha vida é perceber o reconhecimento do meu trabalho por parte de pessoas que nunca vi antes na minha vida.
Também vale destacar que é prazeroso, em si, o processo de busca de aprendizado e descoberta de novas técnicas, tanto na pintura artística, como na arte da marchetaria, que por estar intimamente ligada à marcenaria me permite transitar entre as duas, criando peças cada vez mais elaboradas e diversificadas.
Outra fonte de prazer reside em meu interesse em descobrir e utilizar a tecnologia que está por trás deste ramo de atividade, com destaque para a exploração de máquinas, ferramentas e materiais incríveis. Interesse que advém da minha formação inicial na área de exatas, tendo me formado técnico em eletrônica e estudado até o segundo ano de engenharia eletrônica, antes de mudar para a Sociologia e para a área de humanas.
Faz-me feliz poder realizar o desejo de pessoas interessadas em decorar os ambientes de suas residências ou mesmo seus escritórios, com meus quadros decorativos.
Na prática da molduraria me agrada poder ajudar as pessoas a preservar lembranças das diversas etapas de suas vidas, representadas através de objetos os mais variados, como fotografias, camisas de clubes, gravuras, pequenos objetos adquiridos em viagens marcantes, etc.
Isso tudo me leva a afirmar que valeu a pena todo o empenho e dedicação na busca de novas práticas que me mantivessem ativo e útil.

6. Que dicas você daria para outros executivos que chegam à maturidade e precisam decidir como viver os anos da velhice?
R.: Eu diria a eles, que não esmoreçam diante desse momento divisor de águas em suas vidas, haverá perdas obviamente, mas a busca consciente por algo novo que preencha suas vidas certamente poderá lhes proporcionar algo maravilhoso e transformador, se se dedicarem a descobrir ou desenvolver habilidades latentes que nunca foram despertadas ou exploradas antes.
Ter um Propósito Transformador, que lhes diga por que devem se levantar pela manhã de suas camas, é imprescindível para esse momento de transformação. Manterem-se informados sobre mudanças, posturas eficazes diante dos novos paradigmas que estão se instalando e conhecer técnicas como o IKIGAI e muitas outras podem ajudar muito nessa empreitada que não é fácil. Existe uma extensa literatura e vídeos de depoimentos do tipo TED que podem auxiliar, em muito, quem precisa se preparar para um novo mundo de possibilidades e realizações. Um livro que me marcou muito foi o do brasileiro chamado Tiago Mattos, “Vai Lá e Faz”. Outro livro marcante foi da dupla Magaldi e Salibi Neto – “Gestão do Amanhã”, bem como “A Era Pós Digital” de Walter Longo, entre outros.
Essas dicas podem parecer uma forma de banalizar ou reduzir a complexidade desse momento tão importante e marcante de transição da vida de uma pessoa, mas não é, tudo que puder nos demover da inércia e nos colocar em movimento em busca de um salto de patamar é bem-vindo na minha opinião.
Outra dica de ouro é procurar se acercar de gente melhor do que a gente. Isso foi algo que sempre pratiquei e que funcionou e tem funcionado muito bem.

Francisco Baqueiro/Senioridade