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Onde os idosos já são mais numerosos que as crianças.

Dados da Fundação Seade mostram que a região  do Grande ABC virou a pirâmide antes da média do país. A pergunta que importa não é “quantos somos”, mas “para que estamos preparados”.
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Durante décadas, o Grande ABC foi sinônimo de juventude operária. Era para lá que iam os migrantes do Nordeste e de Minas em busca de emprego nas montadoras, e nas vilas se formavam famílias numerosas. Pois essa região acaba de cruzar uma linha simbólica: hoje ela tem mais pessoas com 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes de até 14 anos.
Os números são da Fundação Seade, órgão de estatística do Estado de São Paulo, e foram divulgados pelo Diário do Grande ABC em 28 de setembro. São 529.763 idosos para 455.800 crianças e adolescentes, um índice de envelhecimento de 116, ou seja, 116 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 com até 14.
Cidade por cidade
Cidade Índice de envelhecimento
São Caetano do Sul 172
Mauá 128
Santo André 124
Ribeirão Pires 123
São Bernardo do Campo 109
Diadema 88
Rio Grande da Serra 88
São Caetano, com seus indicadores sociais historicamente altos, já tem quase dois idosos para cada criança. Só Diadema e Rio Grande da Serra ainda não viraram, e a projeção indica que é questão de tempo. Para 2050, a Seade estima cerca de 820 mil idosos para 373 mil crianças e adolescentes na região.
Não é surpresa, mas é um aviso
A virada estava prevista, e a própria Seade apontava 2025 como o provável ponto de inversão. O que ela revela é que o envelhecimento brasileiro não acontece de modo uniforme. Algumas regiões, em geral as mais urbanizadas e de maior renda, chegam antes. Elas funcionam como um laboratório do que o restante do país vai viver nas próximas décadas.
Uma observação importante para quem gosta de comparar números: índices de envelhecimento nem sempre usam o mesmo corte de idade. A Seade considera idoso quem tem 60 anos ou mais, como define o Estatuto da Pessoa Idosa. Já o IBGE, no Censo 2022, calculou o indicador com a população de 65 anos ou mais e chegou a 55,2 idosos para cada 100 crianças no Brasil (em 2010, eram 30,7). Os dois dados estão corretos, mas não podem ser colocados lado a lado sem essa ressalva. Em tempos de tanta estatística circulando nas redes, vale sempre perguntar: quem mediu, como e com qual definição?
O que muda na vida real
Mais idosos que crianças não é, por si só, um problema. É, na verdade, o resultado de conquistas: vivemos mais e as famílias escolhem ter menos filhos. O problema aparece quando as estruturas continuam desenhadas para a sociedade de antes.
Na saúde, a região vai precisar de mais geriatras, mais cuidado domiciliar e mais prevenção. Como lembrou à reportagem a coordenadora de Gerontologia da FMABC, Ana Paula Guarnieri, envelhecer não é sinônimo de adoecer, mas a falta de cuidado desde os 30 anos cobra seu preço mais tarde.
No trabalho, a conta é igualmente clara. Uma região com cada vez menos jovens entrando no mercado não pode se dar ao luxo de descartar profissionais aos 50. O etarismo, além de injusto, está se tornando economicamente irracional.
E há uma dimensão que não aparece nas tabelas: a subjetiva. Uma sociedade em que a maioria já passou dos 60 precisa rever o que entende por aposentadoria, por projeto de vida e por pertencimento. Não se trata só de “cuidar dos idosos”, mas de reconhecer que eles são, cada vez mais, o centro da vida da cidade: consumidores, voluntários, cuidadores, trabalhadores e cidadãos.
A pergunta que fica
O Grande ABC chegou primeiro, mas o Brasil inteiro vai pelo mesmo caminho. A questão não é mais se vamos envelhecer como sociedade, e sim como. Com planejamento, políticas públicas e empresas preparadas, ou no improviso?
E você? Sua cidade, sua empresa e sua família já estão se preparando para essa virada?
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Fontes
• Diário do Grande ABC — “Região alcança projeções e em 2026 registra mais idosos do que crianças” (28/09/2026), com dados da Fundação Seade
• IBGE, Censo 2022 — índice de envelhecimento (via Rede Geronto)
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